RÉQUIEM PARA UMA NEGRA- 1982/83/84


Diretor: Luiz Carlos Maciel, baseado na obra de William Faulkner
Elenco: Maria Claudia, Ruth de Souza, Luís Linhares, Helber Rangel




Não foi só prestando um tributo ao morador do sul dos Estados Unidos, ou dos bairros pobres do Brooklyn, que William Faulkner, escreveu "Réquiem para uma Negra". Foi prestando um depoimento muito sensível sobre os controvertidos canais da justiça e das circunstâncias que a tornam injusta, discorrendo sobre o processo, julgamento e a condenação de uma empregada negra de confiança da família de classe média americana, em 1940.
William Faulkner toma Nancy Mannigoe (Ruth de Souza) como seu bode expiatório para explorar a situação (não só a situação de uma empregada de cor) dolorosa, das confidências entre patroa e empregada, ambas conhecedoras do passado de cada uma, de seus passados, aventuras, amantes e as dívidas, até que num acesso de complexa proteção à filha da "madame" que decidira sair para um encontro com o amante Fred, traindo o marido Gowan Esteves (Helber Rangel), mata friamente a filha do casal.
"Réquiem para uma Negra" põe em foco Nancy (Ruth de Souza), sentada num banquinho no centro da aconchegante arena do Teatro Cândido Mendes, ouvindo uma voz gravada por Antonio Pedro, como o Juiz, indagando, após o veredito do júri, se a ré tinha algo a declarar. Nenhuma resposta. O juiz declara-a culpada (não aparecendo o julgamento em cena) de crime de morte e a condenação por enforcamento. A culpada responde "sim senhor", o foco se desfaz, entra uma música lamentosa dos negros americanos em play-back, dando entrada à Temple Drake (Maria Claudia) e o advogado Gawin Stevens (Luiz Linhares), tio do marido e amigo da família e discutem sobre o julgamento. De bela presença, Maria Claudia, veste figurinos lindíssimos e adereços de Sílvia Sangirardi, seguindo passo a passo com Linhares, o perfil da marcação rígida (pela densidade do texto) mas de extrema fidelidade com Faulkner, a direção de Luiz Carlos Maciel, que adaptou e traduziu a obra.
Uma amarga transposição do dilema de Nancy em outro processo racial, embora William Faulkner não seja um defensor de causas negras, mas sim, um defensor dos direitos do homem, não criticando a injustiça consumada, mas aprofundando-se nos porquês da "falsa justiça". Nesse processo, muito contribui a lucidez de Luiz Carlos Maciel na direção. A patroa (Maria Claudia) acusa a empregada, sentido-se culpada porém, por erros antigos encobertos que a "negra" sabia. Esta, mata a filha do casal para protegê-la dos vícios adquiridos nos bordéis pela mãe. Um duplo e confuso ping-pong de emoções. Esclarecidos pouco a pouco pelos quatro desempenhos à altura de William Faulkner. Temple (a esposa) pensa enfim, numa forma de salvação ou de comutação da pena de Nancy, já presa. O advogado (Linhares) indaga sobre uma prova "desconhecida ou forjável". Nada existe. Crime deliberado. Entra Gowan Esteves (Helber Rangel) - prêmio de melhor ator no filme "A Volta do Filho Pródigo" - , sobrinho do advogado e ex-alcoólatra. Serve bebidas ao tio, não consegue levar o copo à boca, treme, engasga, sufoca sua queixa, é observado pelo tio, mas diz "que aquela negra vagabunda e viciada deve morrer". A platéia não respira. Suspira vez por outra quando Maria Claudia se aproxima justificando-se, batendo-se, seguindo com elegância e firmeza na bela voz, a protagonista Temple Drake. Muda a luz nostálgica e "adulta" de Aurélio de Simoni, mudam ambientes, Maria Claudia troca de roupa na penumbra, está em casa do governador tentando o indulto ou comutação da pena. Nada conseguindo, o dilema de Faulkner e a direção de Maciel vão seguindo de comum acordo. Helber (Gowan), pálido, descobre o passado da mulher, despreza-a, sabe das "cartas suspeitas".
Temple discorda, briga, debate-se, chora, ajoelha-se e pede salvação para sua alma "se é que eu ainda tenho alma". Ruth de Souza, na prisão, sentada no centro, como no início, tem a bíblia nas mãos e brilha, cantando uma sentida melodia dos negros do sul. A platéia entende. O esposo retorna e com ele a reconciliação do casal com Ruth de Souza na prisão dizendo: "Deus nos curará e nos livrará dos tormentos da morte". A platéia respira aliviada após uma hora e meia de "Réquiem para uma Negra" no Cândido Mendes. E aplaude de pé no final.




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